Noite de 24 de novembro de 1807, onze horas
Naquela noite, Lisboa inteira fingia dormir, e Gaspar Vidal catalogava a fuga de um império à luz de duas velas de sebo.
Ninguém dissera a palavra. Nos corredores da Real Barraca da Ajuda, o paço de madeira que abrigava a corte desde que o terremoto engolira o outro, falava-se em “resguardo”, em “providências”, em “mudança de estação”. Mas havia oito dias que desciam para Belém, pela calada, carros cobertos de lona; havia oito dias que o Erário Régio sangrava ouro para os porões das naus; e havia três noites que Gaspar recebia listas de livros com uma ordem seca no alto: encaixotar, pregar, não perguntar.
Um império de trezentos anos cabia agora em caixotes de pinho numerados a carvão.
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O frei Anselmo jazia entre dois caixotes abertos, de costas no soalho, os olhos postos nas vigas.
A mão direita do morto, pousada sobre o peito, guardava alguma coisa. Gaspar abriu-lhe os dedos um a um, pedindo-lhe perdão em silêncio a cada um deles. Na concha da palma, arrumadas com um cuidado que fazia frio, luziam cinco moedas de prata antigas, gastas, do tempo dos Filipes ou de antes. Quatro nos cantos e uma no centro.
Uma cruz de prata. Ou outra coisa.